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TOAP: RECUPERAR, REVISITAR, RELEMBRAR

Por Rui Teixeira, 2022


Esta história tem início no ano de 2001, ainda no rescaldo de uma exposição mundial, 3 anos antes, em Lisboa, a Expo 98, e em pleno rejúbilo com o Porto como capital europeia da cultura. O Jazz em Portugal começava a ganhar maior dimensão, mais dinamismo e autonomia. O primeiro curso superior dessa música em tempos mal-afamada, dava os seus primeiros passos na cidade do Porto. Retornavam também a Portugal alguns protagonistas das incursões académicas com vista a descobrir os segredos desta música, in loco, no lugar onde ela nasceu, a longínqua América do Norte. Um desses retornados, pode-se dizer que regressou como um tornado, tal foi a importância e as consequências do metafórico remoinho de vento ao qual deu início.


Falamos pois de André Fernandes, guitarrista e compositor lisboeta que em muito boa hora resolve meter as mãos na massa e criar assim um veículo de divulgação do seu fervilhante e prolífico trabalho. Ainda na altura em contra-mão com a lógica de mercado vigente, esse veículo chama-se Tone of a Pitch, abrevia-se como TOAP e acaba por ser uma das mais importantes editoras discográficas independentes do jazz nacional e internacional. Juntamente com o contrabaixista Nelson Cascais e um terceiro colaborador responsável pela parte gráfica, Alexandre Fernandes, irmão de André, a TOAP dá-se a conhecer com dois trabalhos de Fernandes e Cascais, respectivamente: “O Osso” e “Ciclope”. Desde este duplo pontapé de saída até à sua extinção em 2014, e com a distância devida que os dias de hoje proporcionam, o catálogo completo da TOAP adquire o estatuto de documento histórico no percurso do jazz português do século XXI.


Neste extenso espólio, compilado ao longo de 14 anos, perfilam os novos e emergentes valores do jazz nacional como o próprio Fernandes e Cascais ou o guitarrista Nuno Ferreira que, após editar pela catalã Fresh Sound New Talent, se muda para a equivalente lusa, a TOAP. As experiências, trocas musicais e amizades feitas por Fernandes e os seus pares com músicos da cena Nova Iorquina, aliadas a um nível de musicalidade e estética cada vez mais equilibrados, permitem a presença de vários músicos deste meio nos discos TOAP. Assim, nomes como Ben Monder, Dan Weiss, Matt Pavolka, Akiko Pavolka, David Binney, Matt Renzi, Jacob Sacks e Bill McHenry, entre outros, são figuras recorrentes em algumas das edições TOAP, como sidemen e em alguns casos como artistas principais. É importante também salientar a presença de músicos portugueses já estabelecidos e sobejamente reconhecidos como Mário Laginha ou o precoce e tragicamente desaparecido Bernardo Sassetti. Incontornável também é a importância histórica do saxofonista Jorge Reis em alguns discos, incluíndo o seu próprio e belo álbum “Pueblos”. Sem a TOAP muito menos registos deste notável músico teríamos.


Em 2010 a TOAP une os seus esforços com a conceituada Orquestra Jazz de Matosinhos passando assim a chamar-se de TOAP/OJM. Neste novo período que dura até 2014, ano da sua extinção, ainda são editados vários e marcantes discos dos quais podemos destacar “Devil’s Dress” a estreia de Susana Santos Silva, “Bela Senão Sem” de João Paulo Esteves da Silva com a Orquestra Jazz de Matosinhos ou  “Motor” de André Fernandes. A lista de músicos e discos lapidares do Jazz nacional do século XXI, no catálogo TOAP, não é infinita mas é extensa. Assim, nada como ter de volta este acervo, agora disponível em formato digital, para ter uma noção real e absoluta do seu importante “todo”.


A existência desta editora também nos trouxe até aqui, tal como conhecemos o aqui e o agora. Tudo é uma consequência de algo e um ponto de partida para algo mais. A TOAP, faz parte activa dessa sinergia e cabe-nos agora a todos a sua preservação e continuidade, quanto mais não seja pela lembrança de que ela existiu. Ouvir e revisitar estes discos também é fazer história.



TOAP 2001 - 2014 / Afonso Pais, Akiko Pavolka, Albert Sanz, Alexandre Dahmen, Alexandre Fernandes, Alexandre Frazão, Allan Mednard, Álvaro Pinto, Ana Araújo, André Carvalho, André Fernandes, André Matos, André Santos, André Sousa Machado, Andreia Santos, António Augusto Aguiar, António Quintino, António Torres Pinto, AP, Avishai Cohen, Baba Mongol, Ben Gernstein, Ben Monder, Ben Van Gelder, Bernardo Moreira, Bernardo Sassetti, Bill Campbell, Bill McHenry, Bruno Pedroso, Bruno Santos, Carlos Azevedo, César Cardoso, Chris Speed, Cine Qua Non, Claus Nymark, Companhia Dos Sons, Dan Weiss, Daniel Bernardes, Daniel Dias, Dave Ambrosio, David Binney, Demian Cabaud, Desidério Lázaro, DJ Ride, Filipe Melo, Filipe Raposo, Filipe Teixeira, Geoclândio Monteiro, Gerald Cleaver, Gianni Gagliardi, Gileno Santana, Gonçalo Dias, Gonçalo Marques, Hugo Antunes, Hugo Raro, Iago Fernandez, Inês Sousa, Jacob Garchik, Jacob Sacks, Javier Pereiro, Jeffery Davis, Jesse Chandler, Jesus Santandreu, Joana Espadinha, Joana Machado, João Ferreira, João Gomes, João Guimarães, João Hasselberg, João Lencastre, João Lencastre, João Moreira, João Paulo Esteves da Silva, João Pedro Brandão, João Pereira, João Rijo, João Silvestre, Jochen Rueckert, Joel Silva, Johannes Krieger, John Ellis, Jon Irabagon, Jorge Reis, José Carlos Barbosa, José Luís Rêgo, José Maria, José Marrucho, José Miguel Moreira, José Pedro Coelho, José Silva, Julian Argüelles, Kalaf, Lars Arens, Leo Genovese, Loft, Luís Candeias, Luís Cunha, Lukas Frohlich, Manuel Marques, Marco Franco, Marcos Cavaleiro, Margarida Campelo, Mariana Norton, Mário Barreiros, Mário Franco, Mário Laginha, Mário Santos, Marta Hugon, Matt Pavolka, Matt Renzi, Miguel Amado, Miguel Fernandez, Mikado Lab, Nate Radley, Nelson Cascais, Nicola Tricot, Nuno Costa, Nuno Ferreira, Ohad Talmor, Orquestra Jazz de Matosinhos, Óscar Marcelino da Graça, Paula Sousa, Paulo Bandeira, Paulo Gaspar, Pedro Gonçalves, Pedro Guedes, Pedro Madaleno, Pedro Moreira, Pedro Pestana, Pete Rende, Phil Grenadier, Raquel Merrelho, Ricardo Formoso, Ricardo Pinheiro, Ricardo Toscano, Rita Maria, Rodrigo Gonçalves, Rogério Ribeiro, Ruben Alves, Rui Pereira, Rui Teixeira, Russ Meissner, Sara Serpa, Septeto Hotclub, Sérgio Pelágio, Simon Jermin, Spill, Susana Santos Silva, Ted Poor, Thomas Morgan, Thomas Morgan, Tiago Maia, TOAP Colectivo, Travis Reuter, Vasco Agostinho, Vicky Marques, Yuri Daniel.

"O Jazz português teve nos últimos vinte anos um crescimento brutal. Isso deveu-se, sobretudo, ao aparecimento de uma nova geração de músicos com uma grande criatividade e desassossego, que os levou a experimentar múltiplos caminhos e universos musicais. Serão vários e complexos os factores que explicam as razões deste salto. Mas também há factos claros e inequívocos, facilmente aceites por todos, como o papel de uma editora independente chamada TOAP, criada por um músico brilhante, inconformado, empreendedor e persistente: André Fernandes. Quando, daqui a uns anos, se quiser falar desta geração e, ainda mais importante, se quiser ouvir o que ela fez, isso será possível graças à TOAP.  Para músicos e amantes de jazz, este não é um pequeno legado."


Mário Laginha